domingo, 18 de abril de 2021

VOCÊ SABE O QUE É CARTÓN?

 cartón em brasileiro é papelão

o papelão é uma amalgama de papéis prensados

esse papelzão, (ou papelão, papel grande), naturalmente serve muito bem para resguardar o conteúdo de um livro, que são papeis dobrados

existe um movimento aparentemente surgido na Argentina no começo deste século e alastrado por toda a américa latina que são as EDITORAS CARTONERAS, editoras ou grupos de pessoas, artistas, pensadoras independentes que encontram no mundo cartonero a realização de seus projetos literários e comunicativos, no sentido de que o livro cartonero é um objeto artesanal e, por isto, mais barato de ser produzido, apesar de mais trabalhoso de se fazer surgir por precisar ser sempre CRIADO e recriado, não apenas PRODUZIDO. 

Além do (re)uso do papelão como capa proporcionar uma liberdade artesanal na criação da estética das capas, com uso de tintas e recursos gráficos orgânicos, que tornam cada livro um livro único, também torna prática constante a reutilização de um material que muitas vezes é considerado dejeto e é reciclado no Brasil principalmente pela iniciativa de catadores e catadoras ruas afora, e ressignifica esse papelão enquanto objeto de reflexão e criação artística, inserindo a arte em um sentido mais ecossistêmico e tornando viável à pequenas editoras, com pouco capital de investimento e pouca mão-de-obra, digamos assim, circularem suas obras e expressarem suas ideias em forma de livro ou revista, geralmente a um preço acessível, apesar de serem objetos com alto teor artístico, na contracorrente de um mercado editorial que cobra caro por livros-coisas feitos por máquinas

nesse contexto é que surge a coletânea Letras de Cartón, uma publicação coletiva de várias editoras cartoneras, com textos do catalogo dessas editoras ou especialmente escritos para a obra. o tema das poesias e prosas foi COLETIVIDADE e SOLIDARIEDADE, mas o que uniu as editoras em um sentido de coletânea coletiva é muito mais a essência cartonera de cada uma delas, o que pode-se notar pela composição geográfica deste livro que vai desde estados das várias regiões do país até outros países como Peru, México, Venezuela, Argentina e Chile

 portanto, há nessa coletânea uma diversidade muito grande de projetos cartoneros, cada qual com sua dinâmica e processos criativos próprios. 

por exemplo nós criamos livros cartoneros, mas também criamos capas com outros papeis, outras gramaturas, enquanto que existem editoras que só fazem livros cartoneros, ou que fazem livros cartoneros com cola, ou só com costura, ou os dois, e assim vai...

o importante é saber que ser cartonero equivale a ser artesanal, e no mundo de hoje o trabalho artesanal cada vez mais recupera seu vigor e sua importância, pois nos reconecta com formas ancestrais de criação e comunicação

 saiba você que é possivel criar livros artesanais com um pouco de estudo e dedicação, e muito amor para com o objeto livro e sua magia

PARA QUEM QUISER SE APROFUNDAR NO ASSUNTO DAS EDITORAS CARTONERAS está disponível aqui no blog uma tradução publicada na TRANSGRESSOAR  de março deste ano cujo titulo é EDITORAS CARTONERAS E ALGUMAS NOTAS DE ESTÉTICA DA EMERGÊNCIA

https://editoramaracaxa.blogspot.com/2021/04/editoras-cartoneras-e-algumas-notas-de.html

aqui, o link para Letras de Cartón

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/letrasdecarton

agradecemos à Candeeiro Cartonera e à Catapoesia, organizadoras e instigadoras das Letras de Cartón


UM SALVE A TODES CARTONEIRES

A FLOR E A NÁUSEA (1945) POESIA

 A Flor e a Náusea 

de Carlos Drummond de Andrade 

em A Rosa do Povo




Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?


Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações

         e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.


Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas sem

                  ênfase.


Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.


Por fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.


Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do trá-

                      fego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto

Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.


Sua cor não se percebe.

Suas pétalas nåo se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.


Sento-me no chão da capital do país às cinco horas

           da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolu-

       mam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas

         em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o

       nojo e o ódio.


                      [1945]


quarta-feira, 14 de abril de 2021

CATALOGO DE PUBLICAÇÕES DA EDITORA MARACAXÁ

 CATALOGO ATUALIZADO (abril 2021)

~todas as publicações são impressas, costuradas e encadernadas artesanalmente~

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/


*TRANSGRESSOAR: TRANSCRIAÇÃO, TRADUÇÃO E COMUNICAÇÃO ARTÍSTICA  

       (REVISTA DE ARTE) 120pg

  

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/transgressoar-transcriacao-traducao-e-comunicacao-artistica


* AMARELO - PEDRO TORRES BUSCH 

             (CONTOS)   200pg 

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/amarelo-pedro-torres-busch


* BOMBANDO JESUS NO CORAÇÃO - GONZALO DÁVILA 

           (NOVELETA)  60pg    [LANÇAMENTO]

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/bombando-jesus-no-coracao-gonzalo-davila


* ÂNTESE - ANA RAIZ   

              (POESIA)   40pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/antese-ana-raiz


* O QUE É CICLO LUNAR? - ISABELLA TORRES BUSCH 

        (coleção A Crescente) 50pg

               [livro de bolso]

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-que-e-ciclo-lunar

* O DELÍRIO DAS COISAS - AURELIANO CAMINHAMAR [2a edição]    

              (MANIFESTO)   207pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-delirio-das-coisas

* AS FRONTEIRAS DO SONHO - GONZALO DÁVILA  

            (NOVELETA)      76pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/as-fronteiras-do-sonho


* LETRAS DE CARTÓN (COLETÂNEA CARTONERA) 64pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/letrasdecarton


* O ÍNFIMO NA BEIRA DO ABISMO - AURELIANO CAMINHAMAR  (ROMANCE EXPERIMENTAL)           231pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-infimo-na-beira-do-abismo


* POESIA DE CRUZ E SOUSA  (POESIA) 40pg

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/none-69708451


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NO PRELO:


* O QUE É FILOSOFIA? - JOSÉ VICTOR DA SILVA

(COLEÇÃO A CRESCENTE) [livro de bolso] 

* MANGUE SCIENTÍFICO - APROXIMAÇÕES ENTRE A CULTURA POPULAR E A CULTURA CIENTÍFICA (REVISTA DE CIÊNCIA)

                      POR LIVROS POPULARES E IDEIAS TRANSFORMADORAS


CLANDESTINO - um CONTO de Aureliano Caminhamar

 

clandestino


...mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol... 

          circuladô-de-fulô, Haroldo de Campos



- Papai, o que é clandestino?

- Ora, filhão, você sabe quais são as regras. Ninguém mais pode ser guardião das palavras.

- É que essa parece misturar duas, achei que assim podia.

- Mas não pode. Já lhe disse que regras são regras. Vamos, não me importune tanto, não vê que agora é hora do jacaré vomitar liquidificadores? Isso é coisa só de adultos. Vá fazer sua lição, menino, vá.

- Está bem.

O menino saiu gingando do escritório com janelas que tocavam o chão e viu o sol entrar pela claraboia, pulou amarelinha até chegar na porta, riscou o quadro-negro, cuspiu no coletor, girou a maçaneta e adentrou o quarto de teto curto e paredes ásperas.

Se acomodou esparramado na cadeira balançavel e conectou a fita de dois olhos na gaveta, procurou a palavra, vestiu os fones de alpaca algodoada, apoiou o antebraço na mesa larga e pressionou o plei.

Quando alguma palavra nova surgia ele sempre desvendava, antes de mais nada, seu ritmo próprio, minuciosamente, pra só depois tentar entender o que significava e como às vezes era difícil. Porque surgiam várias outras palavras desconhecidas e ele precisava então caçar outra música na fita infinita pra compreender o significado daquela outra. As vezes quando se dava por si estava perdido por entre as músicas das palavras, sem saber como havia chegado ali, sem saber como tinha começado. Ria um pouco de desespero, mas também de pura alegoria alegre, por estar a conhecer cada vez mais os significados e a desbravar os ritos, ritmos e sonoridades, que imaginava nunca terem fim. Por serem infinitas as músicas, também o eram as palavras.

Gostava de criar sinônimos, como gostava. É que cada música tinha dentro dela ainda outra música que era o espelho próprio da palavra do som que produzia o sentido. Sempre no ritmo dos instrumentos, conjuntado com o da voz humana e ainda seus timbres e pulsos, graves e agudos.

A música clandestino bastou escutar uma vez e já entendeu. Era como se já soubesse, antes mesmo de ouvir, e só precisasse confirmar. Captara o morfema pelo vão de uma conversa entre o mindingo e o dicioneiro da praça, quando escalava a fonte clara sem monumento pra poder ver os pássaros comendo as borboletas junto aos ratos e restos. Seu som desde logo impulsionou nele uma espécie de surpresa mesclada à uma familiaridade ancestral.

De um salto escorregou pela beira da marquise e galgou a montanha de folhas-de-bananeira úmidas do sereno, cruzou a praça e foi pra casa com a palavra ruminando na cabeça. Indagou o pai que, como sempre, se utilizou das regras pra dispensá-lo sem maiores cerimônias.

Fez parar de girar o som e foi fazer tarefa cantando o sinônimo que acabara de apropriar em clandestino. Uma palavra linda um som leve, melodioso.

Záira-tsiraquirabainaíra-dziraquirabáinai-tjzêgol

Recitava ela daqui, cantava de lá, ria e ria, sozinho, abraçado pela musicalidade endêmica dos significados, levado pela ritmagem das sílabas. Mas logo começou a nevar vespas em seu quarto e ele teve de se controlar, deixou de cantorias, lambeu as farpas da ponta dos dedos e tirou os cabelos da testa, precisava terminar a tarefa de casa.

Só que pela porta entreaberta ouviu a conversa do pai com a mãe. Tinha o hábito de manter o ouvido sempre atento em múltiplas frequências, feito uma antena, e, por isso, os mais velhos costumavam chamá-lo de parabolicamará. Palavra que, sinceramente, nunca entendera muito bem. Ficou escutando.

- Essas crianças de hoje em dia. Querem saber tantas palavras. Pra mim sempre bastaram algumas poucas. Que há com o mundo, Rogéria?

   - Não há nada com o mundo, Marcelo. Você que está diferente.

- Pelo contrário, eu sou o mesmo, as regras também, o mundo que mudou. Tem tanto tempo que somos guiados pelas regras que hoje em dia existem músicas demais. Uma palavra já não é mais uma palavra, são várias ao mesmo tempo, são tantos sentidos e significados e musicalidades que não há mais verdade, tudo está perdido, Rogéria, estamos condenados.

    - Como você é dramático. Esqueceu que as regras sempre são feitas ou pra serem quebradas ou pra serem alteradas?

- No mundo dos seus sonhos, só se for, sua anarquista. Me impressiona que após tantos anos você ainda pense assim. Uma criança que cresce sem verdades é um amorfismo. Que vamos fazer quando o Hermeto…

A funcionária geral da casa entrou de repente e ele teve que fingir não estar escutando pois era ofensa grave às regras ser bisbilhoteiro, ser curioso demais. Ela adentrou leve, fechou a porta, esquadrinhou o quarto, de pedaço em pedaço, peça por peça, lançou nele aqueles olhos encharcados de preguiça e desalento.

Era tarefa sua acompanhar o correto desenvolvimento das tarefas do menino, mas, como fazia isso a milhares de anos, gostava mesmo era de interpelá-lo pra juntos ouvirem músicas, dividirem as palavras, conjuntarem os significados, depois quem sabe as tarefas. Se chamava Israelita.

Com ela Hermeto aprendera muitas palavras. Incontáveis morfemas e suas relações, infindáveis músicas  e  corações.  Foi com ela que aprendeu que uma palavra poderia significar mais de uma música. Ela não tinha medo de ensinar, não se olvidava disso pelas regras. Segundo o pai era extremamente saudosista e mexeriqueira.

Se aproximando com velocidade e jeito sacou do bolso esquerdo o aparelho metálico poeirento com apenas dois botões: um de ligar e outro de desligar. Se inclinou ao menino apertando o de cima.

- Hermenêutinho, hoje você vai aprender a palavra tamborim.

    E a música ressoou pelo espaço, com arranjos crus e simples,sambados livres, deixando o ninho de nuvens que ali morava pictoricame nte espraiado. Em rebuliço estonteante as pernas da mesa feitas de cacto escorregaram por um instante enquanto do teto pendiam vasos de flores, pela janela saltaram gnomos e embaixo da terra os filhos das carroças despertaram com o ronco surdo do metrô.

A palavra principiou em cordas agudas aguadas e depois saudou em harmonia a voz e uma batucada foi crescendo em redor girando tudo em um impulso eufórico-solar de fazer formigar os tornozelos envolvendo os acordes num suingue ascendente e balançante que quando explodiu levou tudo junto condensando a fala do tamborim no desemboque musical daquela outra palavra que já ouvira tantas vezes e ainda não sabia o que significava (por mais que buscasse, por mais que navegasse pelo rio, não encontrava músicas que se chamassem ‘carnaval’), por isso não sabia, mas de alguma forma entendeu que  o  tamborim  era  feito  a semente dessa outra palavra, a faísca de sua germinação, grito das gentes, pequenas, mas fortes, tal qual o tamborim. Carnaval então seria a ressignificação da fala do tamborim, que era essa vontade de viver e dançar, ou algo do tipo, talvez fosse sinônimo de reivindicação, de inquietamento, ou talvez fosse completamente outra coisa. Quando acabou a palavra indagou à Israelita.

    - Menino, você ainda não conhece carnaval?

 - Não. Nenhuma música é ela.

 - Ah, ela é daquelas palavras, não é mesmo? Isso torna tudo mais difícil.

  - Que palavras?

Israelita se remoía internamente, será que devia falar? Não sabia até que ponto tinha o direito de interferir na musicalidade daquele menino. Amava-o como se fosse cria sua, e talvez fosse, mas quantas vezes o Doutor Marcelo não interrompera os dois em meio a conversas sinceras ameaçando entregá-la às autoridades por uso excessivo das palavras, por explicações demasiado aprofundadas das músicas, por corromper a mocidade alheia com conhecimentos apenas instintivos, simplesmente sensitivos, com saudosismos históricos.

- Nada nada. Posso te contar uma história?

- Claro.

- Me escuta bem que só vou contar uma vez. Minha avó costumava ensinar que muito tempo atrás, antes do Grande Dilúvio, nossos antepassados tinham Carnaval. Mas carnaval não era só uma palavra, era muito mais. Você consegue entender isso?

- Acho que sim.

- Pois então, naqueles dias as pessoas não tinham que seguir as mesmas regras que nós, as condutas eram outras, as condições eram outras, mas as palavras e as músicas eram as mesmas. Está me acompanhando? O carnaval surgiu como uma festa clandestina, quando os menos favorecidos se reuniam na rua em festa pra arregimentar um pouco de alegria em meio a vida árdua que levavam.

- Porque a vida deles era ardida?

- Não era ardida, era árdua. Que é arder de dificuldade. É que nem todo mundo tinha uma casa pra morar, o que comer todo dia. Tinha gente até que morria de fome. Mas, apesar de tudo, eles tinham a música, seus corpos, suas vozes, suas crianças, suas raízes, as suas palavras. Tinham vontade de gritar e foi daí que veio o carnaval. De tirar das frinchas da dor a alegria. Carnaval era vontade de viver além da carne, conforme a própria etimologia diz.

                    - Etimologia?

- Como sou linguaruda. Já falei demais, menino. Que tal sua tarefa?

E Hermeto mostrou a ela o gráfico de tabelas e ondas composto pela apreensão dos movimentos teológicos espaciais. Seu dever era prever, com a ajuda da máquina quântica e seus cálculos, a inclinação   exata   do   eixo   de   rotação   dos protoplanetas em um raio de quinhentas e doze mil versetas, com justificativa musical e tudo.

Israelita não poderia ajudar, mas não deixou de incentivá-lo, melancolicamente rindo os dentes amarelêlados. Ao menos as tarefas ainda tratavam das músicas. Ficou quieta, vendo o menino pensar, lembrando das etimologias, do tempo em que a linguagem podia ser contada, não só musicada. Lembrou que algumas palavras foram escolhidas, pela cúpula do Primeiro Governo, eleito indiretamente, para serem apagadas e suas músicas excluídas dos arquivos. Pois “suas significações não seriam de interesse para a nova humanidade que despontava naquele pedaço de terra. Não haveriam eles de cair nos mesmos erros dos antepassados, dessa vez acertariam, não topariam com seu fim. Deveriam fazer desaparecer as palavras que insinuassem ou fossem, em qualquer grau, clandestinas, sujas e distantes do centro funcional do relógio do mundo.”

Surgiram então os tribunais de inquisição para averiguar que palavras seriam estas. Os pensadores oficiais da nova “filosofia” acreditavam que a clandestinidade era o instrumento do Inimigo para corromper as crianças, os significados e até a vida em si. O certo era exterminá-las, apagar aquela fatia da cultura, cortar o mal pela raiz. Se apoiavam nas regras pra isso, se inflavam na proeminência de sua posição social e viam-se mesmo como os salvadores da humanidade.

- Israelita, quem inventou as regras?

- Não se sabe ao certo. Encontraram um papel amarelado  no  túmulo  da última  chefia dos nossos antepassados junto a incontáveis pinturas e um amontoado de pedras coloridas e panos. No papel estavam as regras, delineadas em tinta de lagarto e mel. Tomaram-nas então como verdades divinas e em torno disso cresceu a nossa cultura.

*

Rogéria sentara-se à mesa junto com Marcelo. Servira café a ambos mais de duas vezes. Olhava-o no fundo do fundo do olho, tentando enxergar o homem com quem se casara. Ele, em contrapartida, tentava ver nela a sua representação ideal de esposa. Queria que ela concordasse com seus métodos e o ajudasse, mas as coisas tomavam outro rumo. Ela andara lendo livros dos antepassados.

                    - Querido, regras são regras. E apenas regras. O que a gente realmente precisa pra viver não é nada novo ou moderno, não são palavras no papel, não são frases antigas que nem sabemos ao certo se se inserem nos costumes. Você esqueceu que tudo passa? Não lembra de seu avô? Que Deus é esse que devemos acreditar cegamente? São regras, apenas regras, almejos humanos. Está me entendendo?

  - Quer dizer que você não crê em deus? E mencionar meu avô, não tinha porque, você sabe como eu fico.

    - Você não escuta! Lembra do que seu avô te ensinou. O Hermeto precisa disso, conhecer o humano além das tecnologias, da significação unilateral, dessas grades que comprimem. Esquece um pouco das regras e ama seu filho com simplicidade, com conhecimento, pelo menos uma vez na vida.

Enquanto isso pela janela incidiam as abelhas-robôs e a cortina sombreava soturnamente os musgos que subiam pela tez da parede imaculada, distante no horizonte uma bicicleta progredia com pentes pedais e cadernos guidões, os skates magnéticos flutuavam caóticos, a estratosfera ia empanturrada de satélites cinzentos, o horizonte desaparecia no rastro de uma gota de orvalho.

- Israelita, foi Deus que escreveu as regras?

- Não. Deus nunca escreveu nada. Ele sempre assoprou a verdade, mas o espaço de um papel é muito pouco pra seus desígnios. Essas regras é sempre algum humano fazendo apoteose do próprio pensamento. Tanto que, pras mesmas regras, as mesmas palavras, mesmas músicas daquele papel, existem outras interpretações, de outras pessoas. Há também quem diga que as regras não estão no papel, mas nas pinturas que lotavam as paredes e seriam, por se tratar de arte, e, por isso, instintivas e livres, representativas da verdadeira mitologia social total daquele agrupamento humano, diferente do papel, que representaria apenas uma instrumentalização transitória daquela culturalidade. Mas decidiram que era de um jeito e assim somos coagidos a viver. Todo dia. Espero não estar usando muitas palavras desconhecidas. Pensando bem, acho que usei clandestinas demais... Mas chega de falar, chega de dizer. Às vezes até eu preciso lembrar disso... Olha só, vou te contar só mais uma coisa, promete guardar segredo?

- Prometo, prometo.

- Escuta bem. Todas  as  palavras  clandestinas têm uma palavra-filha que é ela mesma juntada a outra palavra, com um traço entre elas. Foi o jeito que as palavras musicalmente irregráveis arranjaram de serem perpetuadas. Me escuta, as músicas clandestinas sempre vão poder ser escutadas. É só saber procurar. Não se esqueça.

Nessa hora entrou o pai, com a calopsita apoiada no ombro esquerdo, a bengala ornamental com ares de cajado de cobra no punho, os dentes cerrados e os olhos gigantes, ardilosos.

- Que estão conversando?

 - Sobre a lição dele, Senhor.

  - A Israelita tava me ajudando com a tarefa.

- Pois não faz mais que a obrigação. Pode ir indo, Israelita. Os dados pro lotação estão na bancada.

                  - Tchau, Hermeto.

                   - Tchau-Israelita.

- Ela não estava enchendo sua cabeça de asneiras né?

- De jeito nenhum... Pai, posso perguntar uma coisa?

- Claro, filhão.

- Quando você tinha minha idade, gostava das músicas?

- Até que sim. Entrava numa onda ou outra. Mas gostava das palavras em si mesmas.

- Como assim?

- Eu nunca te disse isso? 

Ele se ergueu do banco de tartaruga e lançou o estilingue na furquilha musgada, fez descer o assento-canoa, aquele em que balançava Hermeto até vê-lo dormir muitos anos atrás.

- É que meu bisavô encontrou, em peregrinação marítima, um livro escrito em um lugar antigo chamado Bahia. Ele me mostrou esse livro quando eu era um pouco mais jovem que você. Lá vinham as palavras em letras grandes e embaixo os significados e origens. Às vezes até a etimologia.

- Etimologia?

- É o estudo da formação das palavras ao longo do tempo. Você já percebeu como nossa linguagem é complexa? Isso não surgiu da noite pro dia. É feito um arsenal de criatividades humanas se somando em torno dessa linha que chamamos de tempo. Nessa história, a língua que falamos sempre é a continuação de uma outra mais antiga. Se retrocedermos bastante no tempo chegaremos ao tempo em que não falávamos, mas enchíamos as paredes de garatujas. Nossa língua existe pelo que veio antes, continuando toda a herança linguística principiada muito antes da primavera que você nasceu. O etimólogo busca a origem das palavras, suas continuações e descontinuidades.

- Que maneiro pai. Porque não aprendemos mais etimologia?

- Porque as regras mudaram, filhão. É que no fim das contas os pensadores perceberam que a etimologia acabava só confuseando mais as coisas. Por mais que fosse interessante, não era seguro. No passado  guerras  e  mais  guerras  aconteciam  por dissonâncias etimológicas e muitas pessoas morriam por isso. Muitas teorias apontam que foi o caos propiciado pelo conhecimento dessas origens das ideias que causou o fim dos nossos antepassados. Por isso, o consenso foi de que o melhor era não ensinar mais as crianças sobre isso. O melhor era destruir a ideia, cortar o mal pela raíz. Na minha época já não ensinavam, mas meu bisavô me mostrou o livro, porque acreditava no seu poder de transformação. Parece muito complicado o que digo?

- Nem um pouco.

- Garoto esperto. Afinal, descobriu o que é clandestino? Qual das músicas você usou?

- Usei a do Chico, pai.

- E então?

- Pelo que pude entender, clandestino é tudo aquilo que é vivo, mesmo quando tudo conspira contra sua existência. E também o clã das gentes que não tem destino certo e andam por ai querendo-saber-sempre-um-pouco-mais. Algo assim. Aliás, clandestino é sinônimo de marginal?

.                     *     *

                         *

Israelita se aprumou no vagão do lotação sem conseguir respirar direito. O aroma de suor misturado com mijo dominava o ar. Ficou pensando em tudo. No antes, no depois, no agora. Pensou até que havia chegado a uma conclusão.

Ali as pessoas tossiam, em condições animalescas, iam pras suas casas, após o  trabalho,cansadas, mas seguras, sem fome, enquanto pela janela passavam voando os postes fosforescentes, insondáveis para ela, que concluiu seu raciocínio e não pensou em mais nada.

Se antes havia mortes pela fome ou pela falta de segurança, pelo menos os seres humanos tinham a liberdade. De dizer, de procurar, de serem curiosos, de alçar a origem das coisas, não só suas músicas, que eram apenas um reflexo da significação geral de cada coisa e cada ato. No mais, era preferível uma liberdade perigosa a uma servidão pacífica.


[publicado originalmente em O Delírio das Coisas (2020)]

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-delirio-das-coisas

A UNIVERSIDADE POPULAR E O DOGMA - MARIATÉGUI

(conferência de José Carlos Mariatégui [escritor e ativista peruano] traduzida por Tereza Uirapuru a partir de uma página datilografada de 1924) - [à ser publicada futuramente na revista Mangue Scientífico - aproximações entre a cultura popular e a cultura científica]

                                                  


O dogma trata de paralisar, trata de cristalizar, em uma fórmula fechada e rígida, o sentido e o objeto da vida. Mas a vida é movimento, a vida é fluência, a vida é inquietude e o dogma de hoje não corresponde à vida de amanhã.

O renovador social. Seu valor não depende tanto da extensão do seu ideal quanto da sua capacidade de realizá-lo.

É necessário ter o sucesso de transformar o ideal em um estado de ânimo coletivo. Para consegui-lo é necessário que o ideal traduza os sentimentos, as ansiedades que latem confusamente na alma das massas. As grandes obras só podem ser obras de multidões.

         A Universidade Popular por isso quer que sua obra e sua voz não sejam as de uma minoria seleta e sim voz e obra de multidões. Não quer que suas reuniões tenham o caráter escolar ou acadêmico e sim o caráter multitudinário de um comício. Não quer como palco e como campo o de uma sala nem o de um teatro e sim o da praça, o do agora. Quer que sua voz estremeça o espirito deste povo.

E por isso seu idealismo é realista e seu realismo é idealista.

Porque o realismo não é uma limitação do ideal mas sim a seguridade de exercê-lo. Há duas classes de idealismo. O ideal que interpreta, o ideal que pressente a realidade em marcha; e o ideal que perde contato com a realidade e com a vida.

Este povo, mais que qualquer outro, está necessitado de ideal. Ninguém está preocupado de injetá-lo. Aqui as gentes, por isso, sorriem de seu ideal. E se trata de aclimatar aqui a filosofia cética, niilista, que nos afirma que a vida não vale a pena ser vivida. Nós devemos opor à essa filosofia negativa a nossa afirmativa e otimista. Devemos encher de idealismo o espirito deste povo, enchê-lo de fé em seus destinos, enchê-lo da loucura santa de renovação.

         Ao fazer tudo isso nos comportaremos não só como liberadores do Homem mas também como liberadores da Arte, como liberadores, da Vida, como liberadores da Ciência e como liberadores da Beleza.


[1924-2021]

Peru - Brasil

terça-feira, 13 de abril de 2021

EDITORAS CARTONERAS E ALGUMAS NOTAS DE ESTÉTICA DA EMERGÊNCIA

em "Editoriales Cartoneras en America Latina – poéticas, politicas y pedagogias," pág. 69, Valeria Lepra Terzaghi – 2018, Rosário, Argentina

                                                  (tradução de Pedro Torres Busch)


Reinaldo Laddaga, em seu livro Estética da Emergência (2006), agrupa e analisa uma série de projetos à luz de algumas noções que o levam a propor a emergência de uma nova cultura das artes. Aqui se tomarão algumas destas noções e se usarão como ferramentas de interpretação das práticas de algumas das editoras cartoneras a partir das quais se realiza esta investigação.

Não se trata, como já foi suficientemente esclarecido, de encontrar dados representativos que permitam uma definição essencialista destas práticas e sim dar a conhecer certos traços de interesse presentes em algumas destas editoras, que configurem uma familiaridade que permita reconhece-las ou remiti-las à um jogo comum, sem com isso fixá-las.

Segundo Reinaldo Laddaga a noção de emergência é corolário de uma séria de traços compartilhados por um tipo de projeto artístico que põe em jogo uma noção do comum que extrapola as tradicionais formas de associação próprias do estado-nação moderno. Estas novas formas de coletividade, sua preocupação pela promoção de ações que superem a mera criação de objetos, para dar lugar a intervenções na comunidade, e a criação de “identidades”, configuram uma nova cultura das artes.”

Este tipo de projeto artístico aparece como de difícil acesso pois não é apreensível em termos de reconhecimento disciplinar, escapa-lhe a determinação que permite localizá-lo em uma tradição nem produções de artes visuais, nem de música, nem de literatura” (Laddaga, 2006, pág. 11). Nessa perspectiva el artista opera como catalizador ou ativadora. Mobiliza uma série de encontros e ações, mas em seu papel no coletivo não se supõe que se estabeleça uma relação hierárquica em que prevaleça sobre es demais integrantes. Pode pensar-se que esta modalidade de trabalho produz um obscurecimento da autonomia tanto da prática quanto do próprio artista. Trabalhando com outras gentes a atribuição individual se dilui no fazer coletivo não tão claramente identificável:

“O artista atua como catalisador, ativa as relações sociais e estimula uma articulação dinâmica entre os participantes. Os sentidos são construídos coletivamente. E é essa construção coletiva que traz a riqueza de significados. O artista funciona como produtor e reprodutor de sentidos culturais, um estimulador de interações, encontros que rompem os limites entre arte e vida, e aqueles que ainda existem na dicotomia entre arte e cultura popular.” (Dulcinéia Catadora, em Bilbija y Carbajal, 2009, pág. 147)

As formas de relação que se produzem nestes coletivos diferem também daquelas que se consolidam através da pertencência à partidos políticos, sindicatos, nações, e atua como espaço de identificação com valores que lhe são próprios, promovendo novas formas de colaboração, participação e pertencer.

Comunidades como as configuradas por estas editoras cartoneras correspondem a formas de identificação tanto local quanto virtual/global. A identificação local tem a ver com os espaços de produção – não só do objeto livro, mas também do encontro como instância para a participação, o intercâmbio de saberes, a reunião com outras gentes – enquanto que a identificação virtual se compõe de instâncias de comunicação através das redes onde estas pequenas comunidades interagem, configurando por sua vez comunidades efêmeras que existem o tempo que durar esse intercâmbio.

Podemos localizar nos fragmentos das entrevistas realizadas para este trabalho as reflexões sobre estes modos de “fazer coletivo”. Algumas intervenções estavam dirigidas às relações locais e sua inserção em uma comunidade preexistente.

“Uma editora tem sua razão de ser onde se cria. Ou seja, causa um impacto na comunidade onde está. Porque agorinha, falta rever digamos, onde se criaram as editoras, porque de certo tinham, como posso dizer, necessidade, não? Que fosse econômica, ou com o papelão, ou uma necessidade de publicar, etc, etc. Isso foi no começo, sim, mas ahorita é um pouco ao contrário, já que este fenômeno é muito mais conhecido a nível mundial. Ou seja, na realidade há gente que diz: "eu vou fazer minha cartonera", não é? É, então, aí é como um efeito de moda. Então a pergunta seria, bem, aí está seu projeto cartonero, esse projeto, que impacto tem em sua comunidade? Que impacto tem em sua cidade?” (Comunicação pessoal – entrevista com La Cartonera, abril 30, 2016)

E mais adiante:

“Pois quero te dizer que, não é um movimento, é como um fenômeno espontâneo. Ou seja, claro que existem diferenças, porque existem cartoneras em muitos países e se vê como um todo. Mas cada projeto tem realmente sua própria dinâmica e sua própria razão de ser.” (Comunicação pessoal – entrevista com La Cartonera, abril 30, 2016).

Outras intervenções buscavam dar conta das interações que “criavam coletividades” a nível virtual, através de comunicações em redes sociais, com outras cartoneras mas também com leitorxs ou simpatizantes:

“Bem, basicamente porque eu sou um indivíduo antigo, não uso celular, essas coisas. Então descobri essa ferramenta e me permite primeiro “comunicación”, comunicação com muitos companheires, me permite agregar os feedbacks de certos recebedores dos livros, e divulgar o que fazemos, né?” (Comunicação pessoal – Entrevista com Vento Norte Cartonero, setembro 27, 2016)

Estas formas de experimentar o comum, estes modos de associação se distanciariam das formas que assumem organizações tradicionais como estados, partidos, sindicatos, conforme Laddaga afirma: “desde a perspectiva do sistema até a estrutura, as organizações são sistemas hierarquizados de regras normativas. As desorganizações são tal vez menos hierárquicas e mais horizontais. São antissistêmicas: não só antiestrutura mas também antisistema.” Mais que seguir regras, organizar-se por meio de hierarquias e ocupar-se de sua própria reprodução colocariam sua capacidade em um estar em movimento próprio da criação, e sua preocupação estaria orientada para a produção. Nessa linha, um integrante da Amapola Cartonera propõe:

         “E há grupos como nós, que não sei qual a proporção mas creio que a grande maioria, que somos coletivos, que simplesmente se unem por um fim comum e lançam projetos. Nós temos trabalhado assim e queremos seguir trabalhando assim, porque não queremos ter tipo esse peso do institucional, apesar de que temos trabalhado e queremos seguir trabalhando com instituições públicas ou privadas, mas que nossa organização não dependa dessa estrutura um pouco rígida, que tem uma entidade constituída. “ (Comunicação pessoal – Entrevista com Amapola Cartonera, fevereiro 9, 2016).

         Estas práticas interessadas pela geração de âmbitos de relações se apresentam aos outros não através de algo que o observador deveria poder apreciar, separado de todo intercâmbio, mas sim porque se propõem “em tantos conjuntos de materiais abertos a reelaboração entre os quais não se encontra nada que limite, a maneira como faz uma obra de arte, nenhum dimensão enclausurada ou caixa escura.” (Laddaga, 2006, pág. 287).

         É interessante trazer aqui um fragmento do manifesto de Dulcinéia Catadora em relação a práticas de intervenção no espaço urbano:

         “Nossas intervenções chamam a atenção para o papelão. Andamos pelas ruas com uma “capa” de papelão pintada, onde penduramos nossos livros. Com megafone, declamamos poesias de autores que colaboram com o Dulcinéia. Isso causa uma perturbação, rompe com os acontecimentos esperados do cotidiano. Divulgamos a literatura a alto e bom som. Literatura para todes, poesia nas praças públicas, pelas ruas, para quem quiser ouvir.

         E também procuramos provocar descontinuidades na realidade, dando espaço para que os sujeitos envolvidos reconstruam sua subjetividade. Em certas intervenções, apenas fazemos uma pergunta, deixando o interrogado livre para interpretá-la e nos dispomos a ouvir e anotar sua resposta.” (Dulcinéia Catadora em Bilbija y Carbajal, 2009, pág. 148).

         Na forma de mostrar, assim como na forma de produzir, estes coletivos promovem “atos de reunião”, como os denomina Laddaga, instâncias para a emergência do comum, para a ação coletiva, a negociação, a cooperação em torno da consecução de interesses compartilhados. Estes “atos de reunião” se configuram também como espaços de participação aberta, variável, de dedicações dispares. Assim alguns formam o núcleo sólido do projeto e outres terão uma participação mais intermitente, ocasional, sem que isto impacte negativamente nos vínculos ou no futuro do projeto. Estas múltiplas formas da participação produziriam modificações no que diz respeito a definição da autoria, haveria um obscurecimento em torno da atribuição da mesma, pelo que me atrevo a acrescentar que na resposta do interrogado, ouvido e registrado com Dulcinéia Catadora é produzido o advento de uma autoria compartilhada. Nesse sentido cabe citar aqui um fragmento em que Laddaga fala sobre um novo lugar que ocuparia o artista distante da construção moderna que o localizava em um lugar de distinção e reconhecimento, e propõe em troca um lugar mais próximo ao de articulador dos processos de uma comunidade determinada:

         “... sujeitos quaisquer, ainda que situados em lugares singulares de uma rede de relações e de fluxos. Sujeitos integrados a processos que conjugam a produção de ficções e de imagens e a composição de relações sociais, campos de atividade cujo desenvolvimento se espera que favoreça a abertura e estabilização de espaços onde possam se realizar explorações coletivas de mundos comuns...” (Laddaga, 2006, pág. 42)

         Neste tipo de exploração es participantes podem revisar e modificar eventualmente tanto o lugar que ocupam como aspectos associados a tarefa que desenvolvem, é um espaço para o aprendizado que não está predeterminado e que se produz no desenvolver do acionar coletivo.

         É de interesse mencionar que Laddaga faz uma distinção entre as propostas que analisa e a manifestação própria das produções de vanguarda, na forma de seus manifestos. Sobre isso propõe, seguindo Andrew Webber, que o manifesto é uma forma de exibicionismo realizado para ser apresentado publicamente e que cumpre com a intenção de desafiar normas dominantes, uma vez que busca produzir certas certezas na forma de uma proposição que aspira cumprir. Se boa parte do trabalho analítico deste projeto se orienta pelos manifestos produzidos pelas primeiras editoras cartoneras, eu considero-os mais como uma narrativa dos integrantes em torno de suas práticas até o momento do que um programa orientador e definidor das práticas futuras.


[originalmente publicado na revista Transgressoar nº1, fevereiro de 2021]

https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/transgressoar-transcriacao-traducao-e-comunicacao-artistica

 

[Tradução] Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes - Gabriel Garcia Márquez (Colômbia)

  Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes,   de  Gabriel Garcia Marquez   ( 1968)                                                   trad...