O que é historicamente considerado "vanguarda" senão uma galera privilegiada que pôde estudar e focar apenas em arte e inevitavelmente chegou a novas conclusões, novas linguagens etc? Enquanto que a vanguarda na verdade é um movimento coletivo, uma coisa assim que se sente no ar e que se comunica e está comunicando com toda gente, é como uma condensação do espirito da época com as necessidades artísticas dessa mesma época, e lugar. O que quero dizer? Que o que é conhecido como vanguarda artística é apenas a comunicação em termos estruturados de uma descoberta ou uma inovação que dorme, latente ou difusamente desperta, no coração de toda a geração.
tradução, transcriação y artesanalidades. coletivo editorial independente na luta contra as estruturas coloniais î colonizantes. aqui se fazem impressos pela transformação da cultura
domingo, 27 de junho de 2021
VANGUARDA?????
quarta-feira, 21 de abril de 2021
CURAR O COLECIONISMO
pingente criado entre os anos 500 e 1500 por gentes nativas de Abya Yala
roubado e agora guardado no Museu do Ouro de Bogotá. foi, junto a outras obras de
arte ritual indígena cedida à Pinacoteca no ano de 2010 para a exposição "Ouros do eldorado"
Curar o colecionismo
de Alexander Herrera Wassilowsky
em Gaceta do Centro de Investigación
y Creación de la Universidad de los Andes, número 3, 2017, Bogotá, Colômbia
(tradução deTereza Uirapuru)
O colecionismo
é uma enfermidade comum, antiga e contagiosa de que sofrem muitas instituições
e indivíduos, também universidades e eu. Usualmente se manifesta na juventude
com um número reduzido de conchas ou rochas recolhidas junto a algum rio ou
praia, mas com frequência se estabelece, se transforma e cresce durante toda a
vida, podendo inclusive chegar a ser hereditária. À diferença do colecionismo
de pedras, chaveiros, moedas ou livros, a acumulação exclusiva e excludente de
peças de arte pré-hispânica se insere em uma larga tradição de destruição e
alienação das bases materiais da história indígena. Se a história nos ajuda a
aprender do passado poderia falar-se de uma enfermidade autoimune de origem
colonial. Seu sintoma mais diagnóstico é a guaquería: o saque de sítios
arqueológicos para buscar tumbas e oferendas indígenas que contenham peças de
valor. Desconhecemos a maneira de extirpar esta enfermidade, mas sabemos que é
possível contê-la e necessário estuda-la, e sabemos também que os museus e as
coleções museográficas universitárias podem exercer um papel chave no processo
de cura(ção).
Etiologia do
colecionismo
Os
conquistadores não demoraram muito pra perceber que os objetos mais apreciados
pelos nativos de América eram feitos para, e depositados com, os difuntos, pois
estes com frequência incluíam objetos de metal. Mesmo se tratando geralmente de
ligas com cobre como base, as notícias de metais preciosos em grandes
quantidades em terras “americanas”, atiçadas pelo Inca Atahualpa com o inútil
pagamento de seu próprio resgate, despertaram a cobiça de um continente e deram
alento a fábulas que animaram jovens europeus a deixar o continente todo e
cruzar o oceano em busca de tesouros. Este afã de tesouro é o mesmo vetor de
contágio que encoraja camponeses e ministros, professoras rurais, diplomatas e
monges, a buscar e comprar peças arqueológicas em toda a América Latina.
Em que pese as
duvidas iniciais entre setores do clero em torno da legalidade da profanação
das tumbas dos “indios” por sua condição de pagãos ou “gentis”, a prática
prontamente se instaurou. No século XVII os “manuais” para a “extirpação de
idolatrias” recomendavam queimar o conteúdo, com exceção dos ossos, em
fogueiras públicas, as quais as vezes eram tão grandes que lugares como Infernillo
e Cerro Purgatorio mudaram de nome para sempre. A intensidade da
destruição associada à cristianização forçada durante as campanhas de
perseguição religiosa varia de região pra região, mas as marcas na paisagem
ainda são reconhecíveis. Peninsulares, mestiços, indios e escravos participaram
da guaqueria por distintos motivos ao longo de três séculos,
tempo durante o qual a guaqueria passou a converter-se em uma forma de
minério, prontamente regulado para assegurar o dizimo da coroa.
Paradoxalmente,
é nesse contexto que surgem as primeiras coleções de objetos de arte
pré-hispânica, apenas mencionadas em testamentos pobremente estudados. Dada a
importância histórica da passagem de uma valorização claramente mercantil e
centrada no metálico dos objetos “pagãos” -o impacto do deslumbramento original
monumentalizado nos “museus do ouro” de Bolívia, Peru, Equador e Colômbia- a um
reconhecimento de seu valor estético, mnemônico e histórico, esta falta de
estudos é surpreendente.
Um segundo
giro nas trajetórias de valoração do que hoje chamamos patrimônio, uma
transformação desta enfermidade colonial, surge com a chegada do projeto ilustrado
no século XVIII. Com as gestas de independência e a formação das republicas
sul-americanas, a enfermidade colonial se transforma, pois se consolida o
reconhecimento de que os objetos do passado não só podem ter um valor estético,
mas também um valor histórico e testemunhal que independe da estética. E é
nesta variante da enfermidade -a busca do conhecimento mediada pela acumulação,
mais ou menos sistemática e ordenada, de objetos de atraente exotismo- onde se
situam os museus nacionais, assim como uma grande quantidade de coleções
particulares como aquela de 1070
objetos arqueológicos, etnográficos e artesanías reunidas por Luis Raúl
Rodriguez Lamus ao longo de sua vida.
Colecionismo caseiro
O colecionismo caseiro de peças de arte pré-hispânica é uma
variante particular da enfermidade com tempo de incubação e manifestação
longos, mas que se pode contrair com escavações de fim de semana ou feriados.
Em uma segunda etapa, o paciente passará de buscador inveterado a comprador
compulsivo, e cedo então a enfermidade começará a atacar a vista do paciente. Mais
cedo ou mais tarde terminará comprando por ouvir, sem olhar, ou olhando sem ver
aquilo que não quer ver. Tão pouco faltará quem se aproveite do colecionista e
substitua por réplicas peças originais de sua coleção ou simplesmente as roube
ou quebre sem querer. Porém, há que se reconhecer-se que a alta qualidade dos
segundos originais à venda nas ruas de Rosales ou Usaquén, aqueles que os
colecionadores perspicazes não compraram, não é casual. A produção de réplicas
de cerâmica pré-colombiana tem mais de 150 anos de tradição, sendo quase tão
antiga quando o colecionismo.
Diferentemente da produção artística da família Alzate, que
levou à invenção de novas culturas pré-colombianas ao longo de gerações, a
maioria dos replicadores fabricam cerâmicas bastante parecidas com as
originais. Em muitos casos lançam mão de fragmentos originais para criar peças
hibridas. Uma olhada superficial, talvez acompanhada de uma boa história, má
luz ou óculos velhos podem ser suficientes para viabilizar a transação que
aliviará alguns dos sintomas do enfermo por um momento, ou dois.
Ainda que não seja uma doença fatal, o colecionismo de peças
pré-hispânicas tende a acabar só com a morte do paciente. São raros os casos de
morte violenta, embora o degolamento de comerciantes de arte pré-hispânica com cuchillos
cerimoniais não seja desconhecido. Uma coleção sem colecionista tende a
converter-se em um problema para os parentes. Se não há contágio na família,
aos herdeiros se abrem dois cenários possíveis: dissolver a coleção e recuperar
uma fração do dinheiro investido ou mantê-la integra e câmbia-la por prestigio.
Conscientes das possiblidades e desafios decorrentes de manter uma coleção, os
familiares do enfermo buscarão entregar a coleção a um prestigioso museu ou
instituição para devolvê-la ao âmbito do público.
O que fazemos com isto?
O número de coleções privadas de bens arqueológicos na América Latina deve ser astronômico e poderia ver-se isso como indicador de uma pandemia de séculos. Mudanças legislativas a nível global e regional sugerem o inicio de um longo ocaso. Pouco a pouco, mas cada vez mais, as coleções de arte pré colonial acumuladas por indivíduos privados passam para os museus e universidades, que devem responder à pergunta: o que fazer com esse apanhado desordenado de objetos guaqueados e comprados, alienados e inventados, de obras mestras da replicação mescladas com peças de cerâmica e líticas originais e fragmentadas? A única resposta possível é dar o exemplo daquilo que se pode fazer para sanar as feridas deixadas pela enfermidade, ressarcir o dano acumulado retornando todo o possível ao âmbito do comum. Em outras palavras, catar as páginas perdidas e devolvê-las ao livro da história.
[esta tradução será publicada materialmente no próximo número da revista Transgressoar, a sair provavelmente em junho. Se você conhece algum texto em outra língua à traduzir ou mesmo em língua portuguesa que dialogue com esta tradução de alguma forma, manda pra gente, vamos publicar na TRANSGRESSOAR]
editoramaracaxa@gmail.com
@editoramaracaxa
domingo, 18 de abril de 2021
TRADUÇÕES DA POESIA ANARQUISTA DE FERNANDA GRIGOLIN
SOU AQUELA MULHER DO CANTO ESQUERDO DO QUADRO, de FERNANDA GRIGOLIN, é um livro publicado em 2019 pela casa editorial independente anarcofeminista TENDA DE LIVROS (https://tendadelivros.org/), de São Paulo. Essa obra faz parte da série AQUELA MULHER. É uma ficção baseada em muita pesquisa histórica e se estrutura como uma conversa-entrevista em que uma trabalhadora que viveu a efervescência anarquista da primeira metade do século vinte conta sua história de vida. O fluxo principal, a conversa, é entrecortado por trechos e fac similes de jornais da época. No livro, escrito em português, existem duas poesias em língua espanhola, uma no começo* e outra no fim (Eu, Tita Mundo)**, aqui traduzi-as para o brasileiro, pela transcriação, pelo comunicar, pela relação somatória entre as línguas y gentes, para que a História, as palavras de Tita Mundo e a voz Daquela Mulher do Canto Esquerdo do Quadro ressoem ainda mais por aí, pelas mentes, chãos e céus do mundo…
[Tereza Uirapuru]
*Peço a ti, leitora,
que ao ler-me escutes
uma mulher tecendo em uma máquina.
Sim, sou eu a tecedora.
Posso ser também
uma mulher tipografa que busca,
letra por letra,
colocar um periódico pra circular.
Posso ser também
uma mulher que maneja o telégrafo
e avisa em ponto e traço a outras mulheres:
ouçam, vamos começar nossa greve.
Estas são as imagens,
eu lhe peço,
escute-as, são mulheres.
O melhor seria falar de mim no gerúndio,
construindo-me,
armando-me linha a linha
desde uma temporalidade feminista.
Mas escrever no gerúndio o tempo todo
pode converter o que escreves
em algo aborrecedor,
quasi um erro linguístico.
Faz, leitora,
o gerúndio em ti,
lê estas palavras
com teu movimento interno presente.
Só a inquietude
constrói saberes desviantes.
Sim, sou eu a narradora.
**Nasci no 04 de maio de 1878 em Barcelona, Espanha
Quando tinha dois anos minha família e
eu fomos viver no Brasil.
Foi a primeira de muitas viagens em minha vida…
Minha mãe trabalhou a vida toda como costureira e
meu pai como sapateiro. Os dois anarquistas.
Nós, os filhos, aprendemos com eles na prática.
A biblioteca era o lugar comum da casa e
sempre líamos livros em espanhol, português e italiano.
Comecei a trabalhar com onze anos e
com vinte participei do meu primeiro boicote, me recordo bem.
Era 1908, São Paulo, armamos um plano entre nós mulheres,
que trabalhávamos costurando sacos de juta,
afrouxaríamos os pontos de maneira imperceptível,
os Mestres não o perceberiam, e
levariam os sacos aos armazéns para recheá-los de café.
Era um risco, passar pelo controle rigoroso que
eles faziam, mas com um bom plano seria possível…
Passamos alguns meses fazendo testes e
esse dia tudo saiu perfeito:
o café foi colocado nos sacos, milhares de sacos.
A maioria deles se descosturou nos trens rumo
a Santos, rumo a exportação…
A bolsa do café baixou pontos e
percebemos que unidas somos fortes.
Mas uma das companheiras nos delatou,
Lucía e eu fomos enviadas ao cárcere como conspiradoras…
Passaram cinco anos até eu poder sair.
Meus pais já haviam sido deportados à Espanha e
sobre meu irmão não consegui nenhuma informação.
Eu por haver cometido apenas
um “crime” contra a segurança nacional,
me meteram na prisão.
Quando sai,
minha casa já não existia,
estava completamente sozinha.
Lucía havia sido torturada e estava morta.
Eu tinha saudade dela.
Com nome falso consegui trabalho em uma Tecelagem
(Cotonifício Crespi).
Também conheci
muitas mulheres que me ensinaram coisas ali.
Minha alma é livre e
enquanto a liberdade não for alcançada
como um fato social, serei grevista.
Aguentei pouco tempo sem planejar ações porque
a fábrica era um lugar insuportável…
Ali conheci a Sophie, ela andava com as irmãs Soares e
outras do Centro Feminino de Jovens Idealistas.
Começamos a viver juntas e me uni a essas mulheres
as quais até hoje sinto muita saudade.
Veio a Greve de 1917: enorme, imensa.
Meu coração dizia que as mudanças eram possíveis e
que íamos construir um futuro próspero.
Me encarceraram outra vez…
Descobriram que era Tita Mundo, a Perigosa Tita,
como me nomearam.
Por ser minha segunda vez na prisão me expulsaram pra Espanha.
Cheguei em Barcelona quase 38 anos depois de minha partida.
Não sabia muito daquele país,
sabia que era a terra de meus pais e
que lá eles começaram a dizer-se anarquistas,
nós líamos muitos livros feitos por espanhóis.
Ferrer Guardia havia sido fuzilado ali…
Mas meu cotidiano era no Brasil,
eu só conhecia as anarquistas que viviam lá.
Procurei irmãos e amigas da minha mãe e
me comentaram que meu pai e mãe haviam morrido
à mando do Pistoleirismo.
De volta à Espanha,
se organizaram em sindicatos,
armaram uma greve e
foram assassinados pelos matones do patrão…
De meu irmão nada sabiam,
mas depois de um tempo descobri que
passou anos sendo trasladado a vários cárceres,
como Bastilha do Cambuci, e que morreu em Clevelândia,
a prisão feita pra nós, os anarquistas,
bem isolada no norte do Brasil e
da qual só Domingos Passos e
alguns conseguiram escapar.
Em Barcelona, comecei a trabalhar como padeira
para ter dinheiro, poder sobreviver e me ir dali.
Via o sangue de meus pais por todos os lados…
Em 1920 subi em um navio de novo, agora até o México.
Cheguei ao Porto de Veracruz,
a Liberdade cobriu todo meu corpo outra vez.
Encontrei muitas mulheres preciosas em La Huaca,
muitas como eu:
solteiras, sem filhos e crentes do prazer sexual.
Fui viver nessa parte da cidade.
No pátio da vizinhança conversávamos,
liamos os artigos das mulheres sobre nossos direitos.
Muitas de nós eram prostitutas.
Falávamos todos os dias sobre a libertação sexual.
Os aluguéis subiam a cada dia.
As muchachas resolveram se unir e começaram a greve.
A união entre as mulheres contagiava de pátio à pátio.
Tamales, café preto, Terra e Liberdade era o que queríamos.
Em nossas portas pendurávamos:
Estoy en huelga y no pago la renta.
(Estou em greve e não pago o aluguel)
Olhava nos olhos de cada companheira e via muita verdade.
Nossas reivindicações eram:
Liberação Sexual, Fim da Propriedade Privada e
Fim do Estado.
Lá conheci Petra e nos enamoramos.
Passávamos dias e dias juntas,
falando de nossas histórias…
Chegou o 5 de julho de 1922,
chovia como nunca,
a água molhava até os ossos.
Fomos todas ao sindicato,
havia muitas pessoas,
mulheres e homens.
A greve estava por todas partes…
Intentamos sair em marcha mas
os federais não nos deixaram.
Houve confronto.
Muitas mortes e encarcerados.
Me meteram no cárcere uma vez mais,
foi a pior prisão da minha vida, fui violada, ofendida…
Me obrigaram a fazer sexo com dois homens,
até hoje tenho pesadelos, policiais me violando.
Antes, meus sonhos sempre haviam sido ternos e
com mulheres…
No ano de 1923, um ano depois,
criamos entre muitas a
Federação de Mulheres Libertárias em Veracruz.
Líamos e estudávamos a história
das mulheres anarquistas mexicanas.
Soube da vida de Margarita Ortega Valdés,
uma valente combatente magonista que enfrentou o deserto e
a repressão, morreu fuzilada em 1913.
Aquilo me impressionou, mesmo depois de tudo
o que eu já tinha vivido.
A história dela estava cheia de detalhes
e me parecia escutar sua voz pela noite dizendo:
FORÇA IRMÃ!
Ela entendia o deserto e
suas zonas de imenso calor como ninguém.
Comecei a ler mais sobre os magonistas e
suas intenções de resistência na fronteira.
A larga fronteira do México tem muita relação com
os Estados Unidos.
Nos tempos da Revolução Mexicana,
o periódico Regeneración tinha partes em inglês com textos
de Emma Goldman, por exemplo.
Soube que nesta época houve um comitê Pró
Revolução Mexicana em meu amado Brasil,
Emma Goldman ajudou que Neno Vascos e
Edgar Leuenroth soubessem mais da irmandade Magón.
No Brasil conheci Leuenroth,
era amigo de meus pais, nos falava de política e
economia brasileira,
ele acreditava muito no internacionalismo.
Em 1925, Petra e eu fomos juntas a Buenos Aires.
Tínhamos uma missão,
reforçar nossos laços de solidariedade,
enviar informação que não podia ir
em uma carta ou por telégrafo e
poder pensar juntas a luta latinoamericana.
Diziam que Argentina era um lindo país…
Lá também aconteceram greves,
Lá também as mulheres faziam periódicos.
La Voz de La Mujer foi o mais antigo.
Era uma emoção saber que éramos várias!
Em um encontro no México,
quando falaram sobre as greves na Argentina,
nomearam uma mulher:
Virginia Bolten.
Soube muitas coisas sobre a Argentina,
houve um grupo de mulheres chamado As Proletárias e
há um periódico em atividade Nuestra Tribuna.
a diretora é Juana Rouco Buella.
Ao chegar a Buenos Aires tive uma boa surpresa:
encontrei Luigi Magrassi,
filho de Matilde Magrassi,
ele estava vivendo na cidade.
Matilde e eu havíamos nos conhecido em uma atividade e
depois nos fizemos amigas.
Que mulher tão otimista,
acreditava muito na sociedade de resistência.
Na Argentina Matilde fazia parte do grupo
As Libertárias.
Luigi estava vivendo ali envolvido na
Liga de Educação Racionalista e
colaborava com o periódico La Protesta.
Buenos aires foi um lugar com muitas atividades anarquistas:
greve de padeiros e
discussões acerca das ideias de Malatesta.
Mas os sindicatos e
federações anarquistas estavam então vazios,
havia outras organizações que
aceitavam negociar com o governo.
A FORA estava com uma campanha laboral de 6 horas,
na tentativa de acabar com a desocupação.
De Buenos Aires tivemos que ir muito rápido,
a situação era insegura…
Petra decidiu ir pra Europa.
Eu decidi passar os últimos anos da minha vida no Brasil.
Tinha saudade das companheiras e da luta neste país…
Aluguei uma casa pequena em Santos, perto do mar.
Santos, em princípios do século,
foi considerada uma das cidades mais anarquistas do mundo
junto a Veracruz e Barcelona.
São os fluxos dos portos os que trazem sempre a novidade.
Ali fui viver.
[traduções originalmente publicadas na revista Transgressoar: transcriação, tradução e comunicação artística - número 1, fevereiro de 2021]
VOCÊ SABE O QUE É CARTÓN?
cartón em brasileiro é papelão
o papelão é uma amalgama de papéis prensados
esse papelzão, (ou papelão, papel grande), naturalmente serve muito bem para resguardar o conteúdo de um livro, que são papeis dobrados
existe um movimento aparentemente surgido na Argentina no começo deste século e alastrado por toda a américa latina que são as EDITORAS CARTONERAS, editoras ou grupos de pessoas, artistas, pensadoras independentes que encontram no mundo cartonero a realização de seus projetos literários e comunicativos, no sentido de que o livro cartonero é um objeto artesanal e, por isto, mais barato de ser produzido, apesar de mais trabalhoso de se fazer surgir por precisar ser sempre CRIADO e recriado, não apenas PRODUZIDO.
Além do (re)uso do papelão como capa proporcionar uma liberdade artesanal na criação da estética das capas, com uso de tintas e recursos gráficos orgânicos, que tornam cada livro um livro único, também torna prática constante a reutilização de um material que muitas vezes é considerado dejeto e é reciclado no Brasil principalmente pela iniciativa de catadores e catadoras ruas afora, e ressignifica esse papelão enquanto objeto de reflexão e criação artística, inserindo a arte em um sentido mais ecossistêmico e tornando viável à pequenas editoras, com pouco capital de investimento e pouca mão-de-obra, digamos assim, circularem suas obras e expressarem suas ideias em forma de livro ou revista, geralmente a um preço acessível, apesar de serem objetos com alto teor artístico, na contracorrente de um mercado editorial que cobra caro por livros-coisas feitos por máquinas
nesse contexto é que surge a coletânea Letras de Cartón, uma publicação coletiva de várias editoras cartoneras, com textos do catalogo dessas editoras ou especialmente escritos para a obra. o tema das poesias e prosas foi COLETIVIDADE e SOLIDARIEDADE, mas o que uniu as editoras em um sentido de coletânea coletiva é muito mais a essência cartonera de cada uma delas, o que pode-se notar pela composição geográfica deste livro que vai desde estados das várias regiões do país até outros países como Peru, México, Venezuela, Argentina e Chile
portanto, há nessa coletânea uma diversidade muito grande de projetos cartoneros, cada qual com sua dinâmica e processos criativos próprios.
por exemplo nós criamos livros cartoneros, mas também criamos capas com outros papeis, outras gramaturas, enquanto que existem editoras que só fazem livros cartoneros, ou que fazem livros cartoneros com cola, ou só com costura, ou os dois, e assim vai...
o importante é saber que ser cartonero equivale a ser artesanal, e no mundo de hoje o trabalho artesanal cada vez mais recupera seu vigor e sua importância, pois nos reconecta com formas ancestrais de criação e comunicação
saiba você que é possivel criar livros artesanais com um pouco de estudo e dedicação, e muito amor para com o objeto livro e sua magia
PARA QUEM QUISER SE APROFUNDAR NO ASSUNTO DAS EDITORAS CARTONERAS está disponível aqui no blog uma tradução publicada na TRANSGRESSOAR de março deste ano cujo titulo é EDITORAS CARTONERAS E ALGUMAS NOTAS DE ESTÉTICA DA EMERGÊNCIA
https://editoramaracaxa.blogspot.com/2021/04/editoras-cartoneras-e-algumas-notas-de.html
aqui, o link para Letras de Cartón
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/letrasdecarton
agradecemos à Candeeiro Cartonera e à Catapoesia, organizadoras e instigadoras das Letras de Cartón
UM SALVE A TODES CARTONEIRES
A FLOR E A NÁUSEA (1945) POESIA
A Flor e a Náusea
de Carlos Drummond de Andrade
em A Rosa do Povo
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações
e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas sem
ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do trá-
fego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas nåo se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolu-
mam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas
em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o
nojo e o ódio.
[1945]
quarta-feira, 14 de abril de 2021
CATALOGO DE PUBLICAÇÕES DA EDITORA MARACAXÁ
CATALOGO ATUALIZADO (abril 2021)
~todas as publicações são impressas, costuradas e encadernadas artesanalmente~
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/
*TRANSGRESSOAR: TRANSCRIAÇÃO, TRADUÇÃO E COMUNICAÇÃO ARTÍSTICA
(REVISTA DE ARTE) 120pg
* AMARELO - PEDRO TORRES BUSCH
(CONTOS) 200pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/amarelo-pedro-torres-busch
* BOMBANDO JESUS NO CORAÇÃO - GONZALO DÁVILA
(NOVELETA) 60pg [LANÇAMENTO]
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/bombando-jesus-no-coracao-gonzalo-davila
* ÂNTESE - ANA RAIZ
(POESIA) 40pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/antese-ana-raiz
* O QUE É CICLO LUNAR? - ISABELLA TORRES BUSCH
(coleção A Crescente) 50pg
[livro de bolso]
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-que-e-ciclo-lunar
* O DELÍRIO DAS COISAS - AURELIANO CAMINHAMAR [2a edição]
(MANIFESTO) 207pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-delirio-das-coisas
* AS FRONTEIRAS DO SONHO - GONZALO DÁVILA
(NOVELETA) 76pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/as-fronteiras-do-sonho
* LETRAS DE CARTÓN (COLETÂNEA CARTONERA) 64pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/letrasdecarton
* O ÍNFIMO NA BEIRA DO ABISMO - AURELIANO CAMINHAMAR (ROMANCE EXPERIMENTAL) 231pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-infimo-na-beira-do-abismo
* POESIA DE CRUZ E SOUSA (POESIA) 40pg
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/none-69708451
*********************************************
NO PRELO:
* O QUE É FILOSOFIA? - JOSÉ VICTOR DA SILVA
(COLEÇÃO A CRESCENTE) [livro de bolso]
* MANGUE SCIENTÍFICO - APROXIMAÇÕES ENTRE A CULTURA POPULAR E A CULTURA CIENTÍFICA (REVISTA DE CIÊNCIA)
POR LIVROS POPULARES E IDEIAS TRANSFORMADORAS
CLANDESTINO - um CONTO de Aureliano Caminhamar
clandestino
...mas o povo cria mas o povo engenha mas o
povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da
maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol...
circuladô-de-fulô, Haroldo de Campos
- Papai, o que
é clandestino?
- Ora, filhão,
você sabe quais são as regras. Ninguém mais pode ser guardião das palavras.
- É que essa
parece misturar duas, achei que assim podia.
- Mas não
pode. Já lhe disse que regras são regras. Vamos, não me importune tanto, não vê
que agora é hora do jacaré vomitar liquidificadores? Isso é coisa só de
adultos. Vá fazer sua lição, menino, vá.
- Está bem.
O menino saiu
gingando do escritório com janelas que tocavam o chão e viu o sol entrar pela
claraboia, pulou amarelinha até chegar na porta, riscou o quadro-negro, cuspiu
no coletor, girou a maçaneta e adentrou o quarto de teto curto e paredes
ásperas.
Se acomodou esparramado na cadeira balançavel e conectou a fita de dois olhos na gaveta, procurou a palavra, vestiu os fones de alpaca algodoada, apoiou o antebraço na mesa larga e pressionou o plei.
Quando alguma
palavra nova surgia ele sempre desvendava, antes de mais nada, seu ritmo
próprio, minuciosamente, pra só depois tentar entender o que significava e como
às vezes era difícil. Porque surgiam várias outras palavras desconhecidas e ele
precisava então caçar outra música na fita infinita
pra compreender o significado daquela outra. As vezes quando se dava por si
estava perdido por entre as músicas das palavras, sem saber como havia chegado
ali, sem saber como tinha começado. Ria um pouco de desespero, mas também de
pura alegoria alegre, por estar a conhecer cada vez mais os significados e a
desbravar os ritos, ritmos e sonoridades, que imaginava nunca terem fim. Por
serem infinitas as músicas, também o eram as palavras.
Gostava de
criar sinônimos, como gostava. É que cada música tinha dentro dela ainda outra
música que era o espelho próprio da palavra do som que produzia o sentido.
Sempre no ritmo dos instrumentos, conjuntado com o da voz humana e ainda seus timbres
e pulsos, graves e agudos.
A música clandestino bastou escutar uma vez e já entendeu. Era como se já soubesse, antes mesmo de ouvir, e só precisasse confirmar. Captara o morfema pelo vão de uma conversa entre o mindingo e o dicioneiro da praça, quando escalava a fonte clara sem monumento pra poder ver os pássaros comendo as borboletas junto aos ratos e restos. Seu som desde logo impulsionou nele uma espécie de surpresa mesclada à uma familiaridade ancestral.
De um salto
escorregou pela beira da marquise e galgou a montanha de folhas-de-bananeira
úmidas do sereno, cruzou a praça e foi pra casa com a palavra ruminando na
cabeça. Indagou o pai que, como sempre, se utilizou das regras pra dispensá-lo
sem maiores cerimônias.
Fez parar de
girar o som e foi fazer tarefa cantando o sinônimo que acabara de apropriar em
clandestino. Uma palavra linda um som leve, melodioso.
Záira-tsiraquirabainaíra-dziraquirabáinai-tjzêgol
Recitava ela
daqui, cantava de lá, ria e ria, sozinho, abraçado pela musicalidade endêmica
dos significados, levado pela ritmagem das sílabas. Mas logo começou a nevar
vespas em seu quarto e ele teve de se controlar, deixou de cantorias, lambeu as
farpas da ponta dos dedos e tirou os cabelos da testa, precisava terminar a
tarefa de casa.
Só que pela
porta entreaberta ouviu a conversa do pai com a mãe. Tinha o hábito de manter o
ouvido sempre atento em múltiplas frequências, feito uma antena, e, por isso, os
mais velhos costumavam chamá-lo de parabolicamará. Palavra que,
sinceramente, nunca entendera muito bem. Ficou escutando.
- Essas
crianças de hoje em dia. Querem saber tantas palavras. Pra mim sempre bastaram
algumas poucas. Que há com o mundo, Rogéria?
- Não há nada com o mundo, Marcelo. Você que está diferente.
- Pelo
contrário, eu sou o mesmo, as regras também, o mundo que mudou. Tem tanto tempo
que somos guiados pelas regras que hoje em dia existem músicas demais. Uma
palavra já não é mais uma palavra, são várias ao mesmo tempo, são tantos
sentidos e significados e musicalidades que não há mais verdade, tudo está
perdido, Rogéria, estamos condenados.
- Como você é dramático. Esqueceu que as regras sempre são feitas ou pra
serem quebradas ou pra serem alteradas?
- No mundo dos
seus sonhos, só se for, sua anarquista. Me impressiona que após tantos anos
você ainda pense assim. Uma criança que cresce sem verdades é um amorfismo. Que
vamos fazer quando o Hermeto…
A funcionária
geral da casa entrou de repente e ele teve que fingir não estar escutando pois
era ofensa grave às regras ser bisbilhoteiro, ser curioso demais. Ela adentrou
leve, fechou a porta, esquadrinhou o quarto, de pedaço em pedaço, peça por
peça, lançou nele aqueles olhos encharcados de preguiça e desalento.
Era tarefa sua
acompanhar o correto desenvolvimento das tarefas do menino, mas, como fazia
isso a milhares de anos, gostava mesmo era de interpelá-lo pra juntos ouvirem
músicas, dividirem as palavras, conjuntarem os significados, depois quem sabe
as tarefas. Se chamava Israelita.
Com ela Hermeto aprendera muitas palavras. Incontáveis morfemas e suas relações, infindáveis músicas e corações. Foi com ela que aprendeu que uma palavra poderia significar mais de uma música. Ela não tinha medo de ensinar, não se olvidava disso pelas regras. Segundo o pai era extremamente saudosista e mexeriqueira.
Se aproximando
com velocidade e jeito sacou do bolso esquerdo o aparelho metálico poeirento
com apenas dois botões: um de ligar e outro de desligar. Se inclinou ao menino
apertando o de cima.
-
Hermenêutinho, hoje você vai aprender a palavra tamborim.
E a música ressoou pelo espaço, com arranjos
crus e simples,sambados livres, deixando o ninho de nuvens que ali morava
pictoricame nte espraiado. Em rebuliço estonteante as pernas da mesa feitas de
cacto escorregaram por um instante enquanto do teto pendiam vasos de flores,
pela janela saltaram gnomos e embaixo da terra os filhos das carroças
despertaram com o ronco surdo do metrô.
A palavra principiou em cordas agudas aguadas e depois saudou em harmonia a voz e uma batucada foi crescendo em redor girando tudo em um impulso eufórico-solar de fazer formigar os tornozelos envolvendo os acordes num suingue ascendente e balançante que quando explodiu levou tudo junto condensando a fala do tamborim no desemboque musical daquela outra palavra que já ouvira tantas vezes e ainda não sabia o que significava (por mais que buscasse, por mais que navegasse pelo rio, não encontrava músicas que se chamassem ‘carnaval’), por isso não sabia, mas de alguma forma entendeu que o tamborim era feito a semente dessa outra palavra, a faísca de sua germinação, grito das gentes, pequenas, mas fortes, tal qual o tamborim. Carnaval então seria a ressignificação da fala do tamborim, que era essa vontade de viver e dançar, ou algo do tipo, talvez fosse sinônimo de reivindicação, de inquietamento, ou talvez fosse completamente outra coisa. Quando acabou a palavra indagou à Israelita.
- Menino, você ainda não conhece carnaval?
- Não. Nenhuma música é ela.
- Ah, ela é daquelas palavras, não é mesmo? Isso torna tudo mais difícil.
- Que palavras?
Israelita se
remoía internamente, será que devia falar? Não sabia até que ponto tinha o
direito de interferir na musicalidade daquele menino. Amava-o como se fosse
cria sua, e talvez fosse, mas quantas vezes o Doutor Marcelo não interrompera
os dois em meio a conversas sinceras ameaçando entregá-la às autoridades por
uso excessivo das palavras, por explicações demasiado aprofundadas das músicas,
por corromper a mocidade alheia com conhecimentos apenas instintivos,
simplesmente sensitivos, com saudosismos históricos.
- Nada nada.
Posso te contar uma história?
- Claro.
- Me escuta bem que só vou contar uma vez. Minha avó costumava ensinar que muito tempo atrás, antes do Grande Dilúvio, nossos antepassados tinham Carnaval. Mas carnaval não era só uma palavra, era muito mais. Você consegue entender isso?
- Acho que
sim.
- Pois então,
naqueles dias as pessoas não tinham que seguir as mesmas regras que nós, as
condutas eram outras, as condições eram outras, mas as palavras e as músicas
eram as mesmas. Está me acompanhando?
O carnaval surgiu como uma festa clandestina, quando os menos favorecidos se
reuniam na rua em festa pra arregimentar um pouco de alegria em meio a vida
árdua que levavam.
- Porque a
vida deles era ardida?
- Não era
ardida, era árdua. Que é arder de dificuldade. É que nem todo mundo tinha uma
casa pra morar, o que comer todo dia. Tinha gente até que morria de fome. Mas,
apesar de tudo, eles tinham a música, seus corpos, suas vozes, suas crianças,
suas raízes, as suas palavras. Tinham vontade de gritar e foi daí que veio o
carnaval. De tirar das frinchas da dor a alegria. Carnaval era vontade de viver
além da carne, conforme a própria etimologia diz.
- Etimologia?
- Como sou
linguaruda. Já falei demais, menino. Que tal sua tarefa?
E Hermeto mostrou a ela o gráfico de tabelas e ondas composto pela apreensão dos movimentos teológicos espaciais. Seu dever era prever, com a ajuda da máquina quântica e seus cálculos, a inclinação exata do eixo de rotação dos protoplanetas em um raio de quinhentas e doze mil versetas, com justificativa musical e tudo.
Israelita não
poderia ajudar, mas não deixou de incentivá-lo, melancolicamente rindo os
dentes amarelêlados. Ao menos as tarefas ainda tratavam das músicas. Ficou
quieta, vendo o menino pensar, lembrando das etimologias, do tempo em que a
linguagem podia ser contada, não só musicada. Lembrou que algumas palavras
foram escolhidas, pela cúpula do Primeiro Governo, eleito indiretamente, para
serem apagadas e suas músicas excluídas dos arquivos. Pois “suas significações
não seriam de interesse para a nova humanidade que despontava naquele pedaço de
terra. Não haveriam eles de cair nos mesmos erros dos antepassados, dessa vez
acertariam, não topariam com seu fim. Deveriam fazer desaparecer as palavras
que insinuassem ou fossem, em qualquer grau, clandestinas, sujas e distantes do centro funcional do relógio do
mundo.”
Surgiram então
os tribunais de inquisição para averiguar que palavras seriam estas. Os
pensadores oficiais da nova “filosofia” acreditavam que a clandestinidade era o
instrumento do Inimigo para corromper as crianças, os significados e até a vida
em si. O certo era exterminá-las, apagar aquela fatia da cultura, cortar o mal
pela raiz. Se apoiavam nas regras pra isso, se inflavam na proeminência de sua
posição social e viam-se mesmo como os salvadores da humanidade.
- Israelita,
quem inventou as regras?
- Não se sabe ao certo. Encontraram um papel amarelado no túmulo da última chefia dos nossos antepassados junto a incontáveis pinturas e um amontoado de pedras coloridas e panos. No papel estavam as regras, delineadas em tinta de lagarto e mel. Tomaram-nas então como verdades divinas e em torno disso cresceu a nossa cultura.
*
Rogéria
sentara-se à mesa junto com Marcelo. Servira café a ambos mais de duas vezes.
Olhava-o no fundo do fundo do olho, tentando enxergar o homem com quem se
casara. Ele, em contrapartida, tentava ver nela a sua representação ideal de
esposa. Queria que ela concordasse com seus métodos e o ajudasse, mas as coisas
tomavam outro rumo. Ela andara lendo livros dos antepassados.
- Querido, regras são
regras. E apenas regras. O que a gente realmente precisa pra viver não é nada
novo ou moderno, não são palavras no papel, não são frases antigas que nem
sabemos ao certo se se inserem nos costumes. Você esqueceu que tudo passa? Não
lembra de seu avô? Que Deus é esse que devemos acreditar cegamente? São regras,
apenas regras, almejos humanos. Está me entendendo?
- Quer dizer que você não crê em deus? E mencionar meu avô, não tinha
porque, você sabe como eu fico.
- Você não escuta! Lembra do que seu avô te ensinou. O Hermeto precisa disso, conhecer o humano além das tecnologias, da significação unilateral, dessas grades que comprimem. Esquece um pouco das regras e ama seu filho com simplicidade, com conhecimento, pelo menos uma vez na vida.
Enquanto isso
pela janela incidiam as abelhas-robôs e a cortina sombreava soturnamente os
musgos que subiam pela tez da parede imaculada, distante no horizonte uma
bicicleta progredia com pentes pedais e cadernos guidões, os skates magnéticos
flutuavam caóticos, a estratosfera ia empanturrada de satélites cinzentos, o
horizonte desaparecia no rastro de uma gota de orvalho.
- Israelita,
foi Deus que escreveu as regras?
- Não. Deus nunca escreveu nada. Ele sempre
assoprou a verdade, mas o espaço de um papel é muito pouco pra seus desígnios.
Essas regras é sempre algum humano fazendo apoteose do próprio pensamento.
Tanto que, pras mesmas regras, as mesmas palavras, mesmas músicas daquele
papel, existem outras interpretações, de outras pessoas. Há também quem diga
que as regras não estão no papel, mas nas pinturas que lotavam as paredes e
seriam, por se tratar de arte, e, por isso, instintivas e livres,
representativas da verdadeira mitologia social total daquele agrupamento humano,
diferente do papel, que representaria apenas uma instrumentalização transitória
daquela culturalidade. Mas decidiram que era de um jeito e assim somos coagidos
a viver. Todo dia. Espero não estar usando muitas palavras desconhecidas.
Pensando bem, acho que usei clandestinas demais... Mas chega de falar, chega de
dizer. Às vezes até eu preciso lembrar disso... Olha só, vou te contar só mais
uma coisa, promete guardar segredo?
- Prometo,
prometo.
- Escuta bem. Todas as palavras clandestinas têm uma palavra-filha que é ela mesma juntada a outra palavra, com um traço entre elas. Foi o jeito que as palavras musicalmente irregráveis arranjaram de serem perpetuadas. Me escuta, as músicas clandestinas sempre vão poder ser escutadas. É só saber procurar. Não se esqueça.
Nessa hora entrou o pai, com a calopsita
apoiada no ombro esquerdo, a bengala ornamental com ares de cajado de cobra no
punho, os dentes cerrados e os olhos gigantes, ardilosos.
- Que estão
conversando?
- Sobre a lição
dele, Senhor.
- A Israelita tava me ajudando com a tarefa.
- Pois não faz mais que a obrigação.
Pode ir indo, Israelita. Os dados pro lotação estão na bancada.
- Tchau, Hermeto.
- Tchau-Israelita.
- Ela não
estava enchendo sua cabeça de asneiras né?
- De jeito
nenhum... Pai, posso perguntar uma coisa?
- Claro,
filhão.
- Quando você
tinha minha idade, gostava das músicas?
- Até que sim.
Entrava numa onda ou outra. Mas gostava das palavras em si mesmas.
- Como assim?
- Eu nunca te disse isso?
Ele se ergueu
do banco de tartaruga e lançou o estilingue na furquilha musgada, fez descer o
assento-canoa, aquele em que balançava Hermeto até vê-lo dormir muitos anos
atrás.
- É que meu
bisavô encontrou, em peregrinação marítima, um livro escrito em um lugar antigo
chamado Bahia. Ele me mostrou esse livro quando eu era um pouco mais jovem que
você. Lá vinham as palavras em letras grandes e embaixo os significados e
origens. Às vezes até a etimologia.
-
Etimologia?
- É o estudo
da formação das palavras ao longo do tempo. Você já percebeu como nossa
linguagem é complexa? Isso não surgiu da noite pro dia. É feito um arsenal de
criatividades humanas se somando em torno dessa linha que chamamos de tempo.
Nessa história, a língua que falamos sempre é a continuação de uma outra mais
antiga. Se retrocedermos bastante no tempo chegaremos ao tempo em que não
falávamos, mas enchíamos as paredes de garatujas. Nossa língua existe pelo que
veio antes, continuando toda a herança linguística principiada muito antes da primavera que você nasceu. O etimólogo
busca a origem das palavras, suas continuações e descontinuidades.
- Que maneiro
pai. Porque não aprendemos mais etimologia?
- Porque as regras mudaram, filhão. É que no fim das contas os pensadores perceberam que a etimologia acabava só confuseando mais as coisas. Por mais que fosse interessante, não era seguro. No passado guerras e mais guerras aconteciam por dissonâncias etimológicas e muitas pessoas morriam por isso. Muitas teorias apontam que foi o caos propiciado pelo conhecimento dessas origens das ideias que causou o fim dos nossos antepassados. Por isso, o consenso foi de que o melhor era não ensinar mais as crianças sobre isso. O melhor era destruir a ideia, cortar o mal pela raíz. Na minha época já não ensinavam, mas meu bisavô me mostrou o livro, porque acreditava no seu poder de transformação. Parece muito complicado o que digo?
- Nem um
pouco.
- Garoto
esperto. Afinal, descobriu o que é clandestino? Qual das músicas você usou?
- Usei a do
Chico, pai.
- E então?
- Pelo que
pude entender, clandestino é tudo aquilo que é vivo, mesmo quando tudo conspira
contra sua existência. E também o clã das gentes que não tem destino certo e
andam por ai querendo-saber-sempre-um-pouco-mais. Algo assim. Aliás, clandestino
é sinônimo de marginal?
.
* *
*
Israelita se
aprumou no vagão do lotação sem conseguir respirar direito. O aroma de suor
misturado com mijo dominava o ar. Ficou pensando em tudo. No antes, no depois,
no agora. Pensou até que havia chegado a uma conclusão.
Ali as pessoas tossiam, em condições animalescas, iam pras suas casas, após o trabalho,cansadas, mas seguras, sem fome, enquanto pela janela passavam voando os postes fosforescentes, insondáveis para ela, que concluiu seu raciocínio e não pensou em mais nada.
Se
antes havia mortes pela fome ou pela falta de segurança, pelo menos os seres
humanos tinham a liberdade. De dizer, de procurar, de serem curiosos, de alçar
a origem das coisas, não só suas músicas, que eram apenas um reflexo da
significação geral de cada coisa e cada ato. No mais, era preferível uma
liberdade perigosa a uma servidão pacífica.
[publicado originalmente em O Delírio das Coisas (2020)]
https://editora-maracaxa.lojaintegrada.com.br/o-delirio-das-coisas
[Tradução] Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes - Gabriel Garcia Márquez (Colômbia)
Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes, de Gabriel Garcia Marquez ( 1968) trad...









